Antoine-Laurent de Lavoisier era, assim como eu, formado em Direito. Entretanto, não foi através do estudo das leis que ele entrou para a história. Lavoisier é o pai da Química moderna.Foi ele o descobridor do caráter composto da água (dois átomos de hidrogênio e um de oxigêncio). Para todos aqueles que já passaram pelo ensino fundamental, tudo isso pode parecer meio banal. Mas é importante lembrar que, até então, a água era tida como um elemento uno e indivisível, como havia proposto Aristóteles quase 2.000 anos antes.
Lavoisier foi o primeiro cientista a anunciar um hoje famoso postulado de que na naureza "nada se perde, nada se cria, tudo se transforma".
Revolucionário. Quer dizer que o fogo não consome os materiais? É, é exatamente isso que quer dizer e não era o que se pensava ordinariamente à época. O fogo é uma violenta oxidação que não destrói nada, mas apenas transforma os materiais envolvidos em calor, gases e cinzas, bem genericamente falando.
Pois bem. Lembrei do Lavoisier ao assistir, confesso, um trecho do Domingão do Faustão neste último domingo (13). Algum desavisado que tenha assistido ao programa pode ter sido surpreendido com o elevado nível de cultura, discernimento e senso de justiça do seu apresentador. Entre o sofrível e embaraçoso Se vira nos 30 e as perenes Videocassetadas, o anúncio comercial da Claro obrigou o Faustão a (re)produzir a seguinte frase:
- Mais do que nunca, é a gloriosa Claro demonstrando que igualdade é tratar igualmente os iguais e desigualmente os desguais.O contexto era o seguinte: a Claro possui uma promoção na qual o cliente escolhe os detalhes do seu plano. Assim, situações desiguais seria tratadas desigualmente, de modo que a justiça seria garantida.
Que sabedoria, hein?! É bem simples concluir que tratar igualmente os iguais é o justo. Agora, estabelecer que a igualdade também é tratar desigualmente os desiguais, na medida em que se desigualem, não é algo com a profundidade comum encontrada nos domingos à tarde na TV aberta.
Como os leitores devem ter concluído, isso não saiu da cabeça do Faustão. Mas também não é fruto da mente de algum publicitário com a inteligência iluminada.
Eu ouvi essa frase pela primeira vez - assim, completinha - em uma das primeiras aulas de Direito Constitucional a que assisti. O prof. utilizou tal frase para ilustrar o alcance do princípio da igualdade, consagrado na Constituição brasileira. O impacto nos estudantes foi grande - inclusive em mim.
Entretanto, também não foi o meu professor o autor da frase (muito embora, fica o registro, capacidade para tanto não lhe faltasse). E ele esqueceu de fazer justiça ao verdadeiro autor, pois não citou a fonte. Uns dois anos depois, aí sim, li que o autor seria o jurista brasileiro Ruy Barbosa. Parecia verossímil, pois Ruy Barbosa foi uma figura muito importante na história brasileira do século XX. Além do mais, era político, diplomata, filólogo, escritor, tradutor, orador...
Era isso! O professor de constitucional havia lido alguma obra do Ruy Barbosa e repassou-nos o ensinamento sem louvar o verdadeiro autor. Mas não. Ainda depois, vim a ler que, na verdade, a origem era a obra Política, de Aristóteles. Ou seja: também o Ruy Barbosa não citava suas fontes! E ainda corro o risco de descobrir que o Aristóteles tenha copiado de algum outro lugar!
Esse copia-e-cola dos autores me fez lembrar, então, do Lavoisier. Assim como na Química, no mundo cultural (quase) nada se cria, tudo se transforma! Nas novelas é a mesma coisa: salvo exceções, todas as novelas são releituras de romances de José de Alencar, de peças de William Shakespeare e das tragédias clássicas gregas. - quem leu Senhora já viu quase todas as novelas da 8! Mas esse assunto fica para outro post.


